Artes Plásticas
A personalidade enquanto processo de construção (vocação?)...
Já muito se discutiu sobre o processo ou o conceito de vocação pessoal, compreendida enquanto objectivo, para uma determinada função. No fundo, um propósito de vida ou missão para muitos, como para Leo Tolstói.
Para este filósofo russo o conceito de missão, não era de cariz religioso, como alguns querem sempre terminar a justificar.
No entanto poderemos justificar este conceito, através do pensamento espiritual e religioso, um propósito divino ou, fundamentado no desenvolvimento emocional, processo que se inicia, positiva ou negativamente, no espaço uterino, dependente do ambiente social que a mãe frequentou, nesse período de gestação.
O espaço uterino, sendo positivo, certamente permitirá um crescimento físico e psíquico harmonioso, que se distinguirá das crianças que não tiveram este privilégio. Uma gestação numa região ou país em guerra ou fome, certamente que não possibilitará um crescimento físico e psíquico harmonioso.
A “primeira vocação” é um conceito religioso, muito defendida e considerada em exclusividade. O termo "vocação" tornou-se refém das confissões religiosas.
Jean Paul Sartre, quando refere que não nascemos com um sentido pré-definido, manual de instruções ou destino escrito nas estrelas, porque o homem está condenado a ser livre nas opções que vai tomar ao longo da vida, já que não pediu nascer. Não pode escapar à responsabilidade de realizar as suas opções ao logo da sua vida, porque nascemos livres para as executar. E aqui retiramos o conceito generalizado que a sociedade "tem" e "quer" do artista, enquanto figura irresponsável, com os comportamentos estranhos e grotescos. Sempre contestatário e com uma vocação irracional: Escandalizar!...
Este conceito estereotipado foi aproveitado, comercialmente ou para alimentar um Ego pessoal, intencionalmente por alguns: foi o caso de Salvador Dali que fingia ser louco, para manter a atenção sobre si, por parte dos órgãos de comunicação social e “marchands” de arte. Hoje sabemos o que foi o seu comportamento ético, pouco recomendável, com a falsificação das assinaturas dos seus trabalhos, entre outras (devo referir que sempre fui seu admirador enquanto pintor surrealista).
Neste mundo da Arte, vejo demasiados oportunistas, calculistas e sem qualquer ética profissional… Se calhar em todos os campos da sociedade.
Entendo a vocação como um processo, uma construção interior, intencional, por parte do indivíduo, que se inicia na infância, produto de inúmeras vivências, sejam positivas os negativas, inicialmente fruto de uma estrutura familiar e, posteriormente já de forma intencional, fruto das vivências, experiências e comportamentos sociais. No meu caso, ainda estou em construção, excepto a nível físico.
Portanto a vocação não passa por uma “chamada” ou “destino” divino!
Passa sim, no campo das Artes, por um processo de construção na base da aquisição de conhecimentos (conteúdos), da experimentação, da regularidade, da intencionalidade, por ser uma opção do foro pessoal, a que socialmente damos a designação de personalidade. E aqui não existe neutralidade ou acções inconscientes, porque somos livres de optar.
Tendo em conta os estudos realizados, René Le Senne define o carácter como um conjunto de disposições congénitas que dispomos desde a infância, definindo a personalidade como um conjunto de disposições externas adquiridas ao longo da vida. A importância dos estudos de Carl G. Jung são um contributo fundamental para compreendermos o nosso comportamento individual que foi definido por factores genéticos e biológicos, factores psicológicos e factores ambientais.

