Ilustração
A Arte não é um termo prostituído…
Muitas foram as questões colocadas, desde os finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, em relação à Arte. Fundamentalmente justificavam-se com a formação e a temática exposta pelos artistas. Questionava-se o academicismo técnico da pintura, como objectivo final, argumentando-se que possivelmente seria castrante da “criatividade”, sem nunca definir este último conceito (Denis, Rafael. 2000). Entre outros artistas, a pintura dos princípios do séc. XIX, do francês William Adolphe Bouguereau seria o alvo de toda a contestação.
Na realidade a pintura baseava-se num exercício de rigor técnico que se limitava ao desenvolvimento duma temática classista baseada na mitologia, história e religião. Como resultado observámos os inúmeros movimentos artísticos surgidos até meio do séc. XX.
A razão existencial de uma Arte baseada em princípios meramente técnicos e temáticos estabelecidos certamente que não se justificava em parte, mas não no todo. Ao contestar todo o passado artístico, construiu-se um fundamentalismo ideológico, baseado no vazio conceptual e existencial! Simplesmente deixou de haver referências, mesmo as mais positivas.
Na realidade o caminho percorrido ao longo dos últimos 150 anos, baseou-se na radicalização e negação total das referências passadas, terminando a ser questionado o trabalho artístico, ao ponto se deveria exigir um prévio conhecimento ao nível técnico, composição, conhecimento histórico e filosófico?
Tudo este percurso negacionista, autodestrutivo e “revolucionário” foi sendo potenciado, terminando no completo vazio conceptual nos últimos anos do séc. XX. Ao ser banalizado (democratizado para alguns) o termo Arte, passou conceptualmente a ser um termo prostituído. Devemos referir Hegel (1980).
O termo Arte ao ser “prostituído” passaria a fazer parte de todo o espectáculo público medíocre, completado por um público ignorante, amorfo e incapaz de criticar (Francis Fukuyama, 1989). Vejamos os seguintes exemplos paralelos na banalização do termo Arte:
- A “Arte de Tourear” será uma forma de Arte, apesar das questões que se colocam ao nível ético e da protecção animal. Não será uma forma exibicionista de um indivíduo doente, comungado por quem não consegue ultrapassar uma visão sádica e o desprezo pela vida?
- A “Arte da política” será uma forma de Arte? Temos consciência que só o discurso, enganador e prometedor, será capaz de seduzir o eleitorado. Várias são as formas conhecidas, mas nada têm a ver com a “Retórica” grega. Neste campo específico não é necessário ter formação específica em direito, economia, etc. para a exigente governação de uma nação… Neste campo a ética está completamente ausente.
- A “Arte no discurso religioso” poderá também ser uma forma de Arte? Ora prometemos o céu, o paraíso ou a vida eterna depois da morte, se formos fiéis a uma determinada linguagem religiosa. Por aqui as questões éticas também parecem estar ausentes.
Na realidade, já podemos concluir que tudo é Arte. Assim o desejemos. Portanto a Arte deixou de existir.
Apoiado no filósofo Hegel (Séc. XIX), Arthur Danto, crítico de arte norte-americano defendeu o término arte, em termos narrativos, por uma questão muito simples:
O objecto físico, ao perder a importância, passou-se apenas a dar importância ao conceito, à ideia e, lamentavelmente, à provocação gratuita. Com o fim dos movimentos artísticos, nas últimas décadas do séc. XX, a arte passou-se a construir na base de uma “filosofia” e uma teoria, baseadas na inorgânica e no irracional, desconhecendo o contexto da história.
A Arte passou a ser escravizada pelas mais disparatadas ideologias urbanas e políticas, negando no caso das artes visuais, qualquer conhecimento técnico, compositivo, histórico e filosófico.
Na realidade, a Arte está totalmente banalizada por um mercado e uma mídia onde, só cabe o indivíduo que desenvolveu um marteking pessoal, sem qualquer conhecimento estruturante sobre a matéria em apreço.
Os limites deixaram de existir! Interessa sim, limitarmos o nosso discurso a “questionar e provocar culturalmente os diferentes públicos”, mas sempre evitando qualquer retorno crítico.
Regressando ao início do séc. XX, com o aparecimento do Dadaísmo, Marcel Duchamp, um dos criadores dos “read-mades”, dará a “facada conceptual” nas Artes Visuais, através do seu trabalho designado de “Fonte” que não era mais do que um mictório invertido.
Posteriormente, na “vertigem criativa” sem referências estruturantes, em 1961, Piero Manzoni com a “Artist’s Shit” ou “Merda de Artista”, enlata as suas fezes em 90 latas cilíndricas (4,8x6,5cm), rotuladas com o título “merda de artista” em inúmeras línguas. A unidade chegou a ser vendida por cerca de 70.000€.
Se nada contribuiu para o “progresso” da Arte, pelo menos definiu-a, a partir daí, como um acto de provocação pública, quanto a nós através de duas facetas:
- Destruturação social – Tudo é possível para provocar e adulterar definitivamente a sociedade através do conceito Arte.
- Instrumentalização ideológica da sociedade – Ao mesmo tempo, em paralelismo, a Arte do século XX também teve uma função de instrumentalização ideológica, transformando-se no caso das artes visuais, em instrumentos de propaganda ideológica ou de regime (Queiroz, Rachel. 1998).
É perante o desgaste cultural das sociedades ocidentais, que surge o termo “Subjectividade”, permitindo todo o tipo de interpretação e justificação, por mais imbecilizado que constitua (Peres. 2018).
Mas acima de tudo a “subjectividade” consegue criar uma elite “hermética” que tudo pode justificar, perante uma sociedade que já assumiu uma incompetência cultural e sem qualquer sentido crítico (aqui os mídia representam um papel fulcral).
Em todos estes exemplos citados, poderemos encontrar um “perfil” humano, conectado com uma designada “esquizofrenia social” definida por Elza Pádua, onde defende a ética como a cura para todo este “possível mal”.
Por isso é que assistimos ao exibicionismo gratuito e ao potenciar de egos individuais, próprios do mau espectáculo, só possível porque a sociedade só reage à provocação, ao ser colocada em causa a sua moral religiosa e social. Na realidade esta sociedade fundamentada na moral, numa abstracta igualdade e no conceito religioso e ideológico de democracia, é completamente vulnerável, enquanto não se fundamentar nos princípios éticos, porque deve ser regida!...

