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10 Jun 2026


A construção de uma vocação.
 

O meu pai António Avelãs Canotilho, originário de uma família humilde de agricultores, do esquecido interior rural de Portugal, da cidade histórica de Pinhel, tinha vários irmãos. Pertencia a uma família típica que sobrevivia, com dificuldade, de uma agricultura de subsistência, baseada na cultura da oliveira e da vinha, fundamentalmente. Se o irmão mais velho tirou o curso de Direito, as irmãs o Magistério Primário, a situação financeira dos pais impediu-o de tirar uma licenciatura, até porque o irmão mais novo, o Professor Catedrático e Constitucionalista José Joaquim Gomes Canotilho, estava a iniciar os seus estudos em Coimbra.
Numa família de humildes agricultores, alguém tinha de ficar para trás, como foi o caso e, portanto, depois de terminar o Liceu, apenas lhe restou a opção de ser funcionário público, profissão que abraçou de forma consciente e dedicada, enquanto opção de vida.

Mas a frustração incompreendida, muitas vezes invocada, por não ter realizado uma licenciatura, permaneceu até ao fim dos seus dias.

Sendo o meu pai funcionário público no Ministério das Finanças em Lisboa, cidade onde vivi até aos 6 anos, estava encerrado o dia todo na casa alugada, com o meu irmão (1,5 ano mais velho) e com uma rapariga designada de “criada”, que tomava conta de nós. A meio da tarde íamos para a janela, aguardando ansiosamente a sua chegada, com quem passeávamos ao entardecer. Constituía um momento de explosão física, de felicidade plena, difícil de definir.

A minha mãe também tinha um emprego nos laboratórios do então “Instituto de Medicina Tropical”, que a ocupava o dia inteiro. Portanto quando chegava a casa, passava a cumprir a sua segunda profissão, até altas horas da noite (dona de casa, mãe e esposa).

Na época, em pleno Estado Novo, uma mulher não se queixava!

Hoje considero que o meu pai viveu sempre com “Medo Social”!... De não conseguir sustentar a família e de ser visado socialmente.
Como já referi, sentiu-se sempre inferiorizado por não ter uma licenciatura, sendo totalmente submisso profissionalmente, aos líderes do “Estado Novo”. Como cidadão, foi exemplar o percurso do meu pai: Sempre lutou por subir na carreira estatutariamente, na base de muitos e muitos exames, concursos, avaliações, provas orais, etc., porque não tinha um "canudo" ou "licenciatura", estatuto determinante na época, capaz de esconder a total incompetência de quem possuía. Contudo concorria, através de provas escritas e orais, aos lugares de chefia da Administração Pública, demonstrando conhecimento e saber, perante muitos opositores, licenciados em Direito, Economia e Administração.

Em 1960, passou para os quadros do Ministério da Administração Interna, ao ter a oportunidade de ser Chefe de Secretaria na Câmara Municipal de Águeda, vila na época, para onde fomos viver, decisão que obrigou a minha mãe a abandonar a sua profissão. O Estatuto de Chefe de Secretaria só era inferior ao de Presidente da Câmara e obtido por concurso público muito exigente, sendo o Presidente de nomeação pelo Governador Civil da altura, entre as pessoas mais consideradas social e politicamente.

Importa desde já considerar que o Sr. António Avelãs Canotilho, demonstrou sempre, na sua carreira de funcionário público, ligado às Autarquias, ser o melhor dos melhores. Refiro isto com o maior dos orgulhos.
Entre os 6 e os 17 anos, tive a “sorte” de viver com os meus pais numa casa alugada, em frente de uma fábrica de Cerâmica Artística em Águeda, a "Fábrica de Faianças do Outeiro", lamentavelmente há muito desaparecida. Foi fundamental esta minha vivência, através da modelação de pequenas formas, onde o contacto com a plasticidade da argila foi determinante, para o desenvolvimento das minhas opções futuras a nível artístico.
Acredito que foi neste período, através do contacto com a modelação, que nasceu a minha vocação!...

A minha Mãe Inês Sobral Gomes Abrunhosa Leitão nasceu numa família de agricultores abastados da freguesia de Vila da Ponte / Sernancelhe. Tinha origens monárquicas e portanto, foi educada num ambiente sereno e verdadeiramente exemplar. Era uma pessoal extraordinária, uma verdadeira referência de amor e compreensão, muito ligada às obras de caridade da Igreja.
Embora não acredite na santidade, era alguém que vivia para Amar e dar Amor, dentro do ambiente familiar, mas também socialmente, ajudando os mais carentes na época, através de uma obra da Igreja designada de "Conferência de S. Vicente de Paulo".
Faleceu muito cedo, com uma doença cancerosa, pelo que não vou continuar a falar dela… Mas a dor foi muito profunda e, ainda hoje me assola, nos momentos da minha reflexão mais íntima, com a sua partida...

O meu Pai cumpriu duas fases antagónicas na vida, no processo de construção interior da personalidade. Durante a minha infância foi uma pessoa completamente austera, incapaz de dar carinho, porque na sua infância também o não terá tido, juízo de valor pessoal, ao observar o carácter dos meus avós paternos. Como já referi, era um Funcionário Público de referência (Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Águeda), de postura irrepreensível perante a corrupção que sempre nos assolou, independente do regime. Pessoa de grande prestígio social, apenas ambicionava o “cumprimento rigoroso” da legislação e regras da sociedade portuguesa: do “Estado Novo” e posteriormente, do regime saído do 25 de Abril de 1974.
Mais tarde, a meio dos anos 80 do séc. XX, transformou-se numa pessoa carinhosa e compreensiva. Sempre disponível para ajudar...

Em 1976 fomos viver para a cidade de Matosinhos, já que passou a ocupar o lugar de Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Matosinhos, tendo, depois de se reformar, sido Provedor da Santa Casa do Bom Jesus de Matosinhos, até que o seu coração, o impediu de continuar…

Ainda fez duas tentativas no campo da política, através das candidaturas, em fases diferentes, a Presidente da Câmara de Matosinhos e posteriormente de Pinhel. Contudo no actual regime democrático, para vencer, impõe-se uma personalidade populista, completamente hipócrita e escrava dos interesses de quem nos financia a campanha, independentemente do partido que nos apoia. Não conseguiu os seus objectivos, facto que nunca compreendeu. Apenas deu para conhecer a hipocrisia desta actual sociedade em que vivemos.
Essa atitude zelosa e irrepreensível perseguiu-o até à morte. Mesmo nos últimos dias de vida ainda afirmava: - “do teu pai jamais alguém o poderá acusar de ter roubado, nem que seja um cêntimo". Esta atitude também se transmitiu a mim e ao meu irmão António José Leitão Canotilho, médico em Sernancelhe. Refira-se que embora médico, possui uma grande sensibilidade cultural e sei que herdou uma missão enquanto médico: Ajudar o próximo. Apesar de já estar reformado, é um médico que continua a ajudar as populações de Sernancelhe, e não só.
Mais uma vez se comprova que a vida é um processo de construção, neste caso de evolução positiva...

Volto a repetir: a personalidade é um processo em construção, na base de vivências, sejam positivas os negativas.

Quando acabei o então designado ensino primário (4º ano), em Águeda, estávamos em pleno "Estado Novo". Havia para os jovens, a possibilidade de seguir o Liceu (plataforma de base aos cursos universitários) ou a Escola Industrial (ensino de curta duração com três anos, mas muito profissionalizante).
Na época compreendi que as minhas vivências ligadas ao desenho e à modelação cerâmica, possibilitariam um conhecimento mais profundo sobre as artes, o cumprimento de uma personalidade em afirmação e, uma carreira profissional no então Curso de Cerâmica da Escola Industrial de Águeda. Fui impedido, pelo meu pai, com o argumento que a Escola Industrial era para filhos de operários...
Era a segunda vez que me impedia de estabelecer o meu percurso pessoal. A primeira constitui-se na aprendizagem da música, ao me impor o ensino do acordeão como instrumento. Algo que aprendi sem qualquer gozo e a muito custo, já que a minha opção era a guitarra.
Na época “era normal”, tal como nos dias de hoje, em muitas famílias, as vocações serem impostas, entre outras decisões que deveriam ser individualizadas!
A partir daqui entrei numa espécie de rejeição ou “niilismo existencial”. Os seguintes 7 anos do Liceu foram um sacrifício, por ter de cumprir e realizar algo para o qual não estava vocacionado.

Comecei a tremer das mãos por volta dos 10 anos!

No ensino da época, a violência física extrema e a humilhação, eram um exercício normal por parte dos directores e alguns professores, "tolerada" pela família, nos anos 60 do séc. XX. Tal foi o que sucedeu no Colégio de S. Bernardo de Águeda, onde realizei o 1º e 2º anos.
O meu primeiro dia de aulas foi deveras e definitivamente traumatizante. Perante a ausência do professor, as crianças do meu ano foram jogar à bola, até que um "contínuo" apareceu e nos levou ao director. A cena indiscritível, passou por uma série de fortes "reguadas" colectivas, de incompreensível, de pura violência.

Estava a partir daqui, e definitivamente, afirmada a Autoridade!

Entrava no Colégio sempre com Medo.... Importa considerar que tive um professor de nome Lobo, homem enorme fisicamente, totalmente austero, solitário, vindo de um seminário de Moçambique, que por duas vezes me fez desmaiar, com tanta tareia, só porque pus a lápis, o significado de duas palavras no livro de francês. Por ser de raça negra, esta atitude nunca me fez tornar racista.
E depois: - Ai de mim se em casa denunciava a violência que tinha sido exercida...
Recordo um episódio onde, depois de contar à minha mãe a "tareia" que me deram, de extrema violência física (depois dela ter observado as marcas físicas no meu rosto), que me tinham dado numa aula, foi bastante incisiva sobre o meu pai quando chegou do trabalho, ao discordar desta forma de educar…
Perante o pranto da minha mãe, ainda levei com um cinto pelo meu pai, sem questionar ou avaliar o motivo, justificando e julgando a merecida tareia que levei do professor Lobo, por não estudar. No fim-de-semana, no café, abordou o professor Lobo referindo que da próxima vez, ainda desse com mais força, perante o meu “desinteresse pelo estudo”.
Uma criança como eu, totalmente condicionada e aterrorizada, não teve uma vida fácil, nos dois primeiros anos do secundário.

Nos anos 60, no distrito só havia os Liceus de Aveiro e de Anadia. A opção mais próxima seria sempre por um colégio particular. Águeda só tinha os dois primeiros anos do Liceu, leccionados no referido Colégio de S. Bernardo. Os anos seguintes só podiam ser realizados em Oliveira do Bairro, num colégio particular ou, numa alternativa mais longínqua, no Liceu da cidade de Aveiro.
Apesar de ser a mais dispendiosa, a opção foi pelo Colégio do Infante de Oliveira do Bairro, dada a distância. Na época, a viagem de Águeda para Aveiro era muito demorada, através do Comboio a Vapor da Linha do Vouga.

O ensino secundário era algo que obrigatoriamente tinha de realizar, apesar da completa desmotivação já referida. Haviam sido castradas as minhas ambições pessoais e, na época, apenas uma questão me motivava, para não perder nenhum ano, já que se constituiria numa perigosa sentença: Incorporação Militar e ida para Guerra Colonial.
Os primeiros anos da época de 1970 foram, por mim, dominados por um novo Medo que me absorvia: Ser incorporado para a Guerra Colonial.
Devo referir, quando em 1974 estava a terminar o 7º ano do ensino secundário, tinha duas explicações a matemática: uma em Águeda e outra na Malaposta, localidade perto de Anadia. O drama passava pela ida para a Guerra Colonial se reprovasse.

Ao mesmo tempo, esse Medo também estava presente na minha família paterna, potenciado permanentemente, onde só havia lugar para o sucesso e a constante comparação com os outros jovens primos, que tinham boas notas do final de ano.
Era importante, para a minha família paterna, manifestar socialmente que, apesar de ser de uma enorme humildade, criava cidadãos exemplares onde só havia lugar ao sucesso académico.
Este era o Medo do “Julgamento Familiar” que se transformou em mim, na emoção de “vergonha” que me assolava.
Era o Medo de rejeição social e familiar onde estava sempre presente uma espécie de julgamento negativo.
Um dos momentos mais difíceis de ultrapassar era, quando visitava a casa dos meus avós paternos. O meu avô, que por dificuldades físicas, há muito estava acamado, quando o visitava nos períodos de férias, não me cumprimentava e recebia-me pouco cordialmente referindo: “Vá! Mostra-me as notas que tirastes… Mostra-me o papel das notas”. Depois de observar uma ou duas negativas e o resto constituído por notas medianas, era humilhado, perante os “dezanoves” e os “vintes” dos meus primos…

Com o 25 de Abril de 1974, a minha família paterna foi dividida e dominada profundamente pela ideologia do Partido Comunista. Se as relações eram de amor e baseadas em princípios éticos, depressa foram destruídas e a desconfiança foi fomentada entre os seus membros através dos conceitos absurdos conhecidos de "direita" e "esquerda".

 

 

Contudo e em contraste, só observava o permanente “Amor” e “compreensão” nas atitudes e nos olhos da minha Querida Mãe Inês Sobral Gomes Abrunhosa Leitão.

O isolamento foi a solução, já que só tinha um ou dois Amigos em Águeda, com a mesma personalidade serena, o Cura (tal como eu era adepto do ciclismo) e o Jorge Xavier.
O isolamento assumido, era uma forma de liberdade. Além de confortável para mim, era alterado entre a realização de desenhos, a modelação de formas, e a realização de km.s e mais km.s diários de bicicleta, fundamentalmente através da Serra do Caramulo ou, no percurso diário entre Águeda e Oliveira do Bairro, onde se situava o "Colégio do Infante" que frequentava. Prescindia na maior parte das vezes do autocarro do colégio, deslocando-me de bicicleta. Compreendi instintivamente, que o esforço físico poderia ser uma forma de felicidade, enquanto sensação de bem-estar e contentamento, ao libertar endorfinas. “Vicio” que ainda hoje “estou dependente”. Na realidade era e é uma forma de reduzir a tensão e a ansiedade, entre outras, explicada pela libertação dos neurotransmissores (endorfinas e dopamina).

É interessante fazer uma pausa, neste meu discurso e, considerar que manifestando a minha incompreensão, no que respeita ao “êxito” académico e profissional, sempre fui a favor da competição no desporto, certamente por ter regras objectivas e indiscutíveis, onde o lugar para a subjectividade e a polémica não existe, excepto nos desportos considerados “jogo”, como o futebol, que fazem parte do que designo de espectáculos circenses e de cariz religioso!...

Eis que chega o 25 de Abril de 1974. e, Com o Liceu terminado com notas médias, de imediato o meu pai levou-me a Coimbra, para realizar testes psicotécnicos. Como tremia das mãos, principalmente da esquerda, o Psicólogo concluiu que na realidade tinha vocação para as artes (Arquitectura). Mas… O “tremor essencial” que já me dominava, acredito, fruto das cenas violência física indescritíveis a que fui submetido nos 2 primeiros do Liceu, entre outras, fui aconselhado o ingressar num curso ligado à Agricultura, por necessitar de um ambiente calmo, como é a natureza.
Este diagnóstico constituiu, para mim, como uma espécie de sentença de morte… Que viria a rejeitar liminarmente, agora com o total apoio e compreensão dos meus pais.
Estava, portanto, impedido de realizar o desenho rigoroso por possuir “tremor essencial”.
Este foi, entre outros, mais um período traumatizante e impeditivo da minha liberdade pessoal.
É interessante considerar que, dos 47 anos como docente, leccionei cerca de 42 anos a disciplina de Geometria Descritiva, no Ensino Superior e, as Provas Públicas que realizei para Professor Coordenador do Ensino Superior Politécnico, foram nessa temática.
Como referi, considero que só existe “Liberdade Pessoal” e ela é “INTERIOR”.

O ano de 1974 foi, como sabemos de grandes incertezas, combates ideológicos e sociais. Em Coimbra inscrevi-me nas Licenciaturas de História e de Matemática. No Porto nas Licenciaturas de Engenharia Civil e de Arquitectura. Não havia a garantia que todos os cursos abrissem, com as convulsões sociais.

Com o advento do 25 de Abril de 1974, a minha família paterna foi dividida e dominada profundamente pela ideologia do Partido Comunista. Se as relações eram de amor e baseadas em princípios éticos, depressa foram destruídas, e a desconfiança foi fomentada entre os seus membros através dos conceitos absurdos conhecidos de "direita" e "esquerda".

Com o 25 de Abril de 1974, a ilusão social e a ideologia tomaram conta da sociedade portuguesa, fenómeno a que não fui alheio e insensível.
Sendo um jovem com 17 anos e inexperiente, as novas ideologias da moda, principalmente da extrema-esquerda seduziram-me por completo...
Sempre fui muito vulnerável a ideais! E quando jovens, sem a necessária experiência vivencial, somos muito vulneráveis ao radicalismo, pelo seu discurso enganador e irresponsável…
Consequentemente tive uma espécie de rejeição orgânica ao regime Marcelista do Estado Novo, à Família que me impôs um percurso de vida e, também à própria Igreja, que deixei de frequentar.
Como já referi, com o surgimento do 25 de Abril, a entrada para a então Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), o “ambiente de liberdade” aí existente, possibilitou a sensação que tinha atingido a liberdade da minha personalidade. Num vertiginoso ambiente politizado, dominado por um esquerdismo extremo, depressa passei a negar este conceito desregulado, pela irracionalidade dos seus objectivos, intenções obscuras e discriminatórias.
Primeiramente, havia ingressado no curso de Arquitectura em 1975, depois de realizar as provas específicas de acesso. O âmbito do curso era unicamente ideológico dentro de um esquerdismo desconcertante. Foram saneadas as disciplinas de Geometria, Matemática e História da Arte. Esta última passou a ser substituída por duas: A Arquitectura na União Soviética e a Arquitectura Fascista no Estado Novo.
Durante este ano nunca tive uma única aula prática e, jamais realizei algum desenho de arquitectura. Os estiradores de arquitectura estavam empilhados no fundo das salas, criando espaço, para a pintura de morais gigantescos, que se constituíam em autênticos panfletos políticos, colados nas paredes da cidade do Porto, pela calada da noite, onde eu participava. As manhãs eram preenchidas em inquéritos ideológicos nas "ilhas" de Campanhã, cujo proveito foi apenas para o seu promotor, o arquitecto Álvaro Silva, na sua ascensão social e elitista.
Foi um período completamente imbecilizado, fomentado superiormente por alguns execráveis professores. O resultado foi o encerramento do curso, durante um ano.
Não me arrependo da opção que fiz ao me inscrever no curso de Artes Plásticas, na mesma instituição no ano seguinte, já que o curso de Arquitectura não iria funcionar.
No novo curso, recordo o 1º dia em que entrei para a ESBAP. Indicaram-me o caminho para o anfiteatro, onde após algumas cenas grotescas, perpetuadas por moções de partidos de extrema-esquerda, fui obrigado a votar o "saneamento" de professores que desconhecia. Eram os professores mais exigentes, entre os quais, de Geometria e também de História da Arte (esta última considerada fascista).
Depressa comecei por me abstrair desse ambiente político, completamente imbecilizado e esquizofrénico…
Entretanto esta inconcebível “vertigem” social porque o nosso país passava, estava a ser alterada, com a ascensão dos partidos democráticos, onde o Partido Socialista, teve um papel fundamental. O perigo de um regime comunista havia passado definitivamente…

Não quero deixar de referir alguém muito importante no meu percurso de vida: O meu tio-avô Aureliano Sobral Gomes, engenheiro e militar, que foi quem sempre me compreendeu e aconselhou. Um perfil admirável a todos os níveis, principalmente no campo ético. Foi colega do Humberto Delgado na Academia Militar e depressa, através do seu sincero testemunho compreendi, como se formam e inventam elites, no pós 25 de Abril, relembradas nas maiores avenidas das cidades portuguesas. Para o meu tio Aureliano Sobral Gomes, homem de carácter irrepreensível, quando abandonei o curso de arquitectura, revelou um grande desgosto...

A Escola Superior de Belas Artes do Porto:

Depois de conseguir ultrapassar este obstáculo de pressão social, compreendi que estava, pela primeira vez, num “ambiente mágico” rodeado de jovens que comungavam dos mesmos ideais e onde se “respirava” Arte e Criatividade, de forma livre e espontânea. Foi neste ambiente que conheci outro amigo, o Viana Paredes, que também obteve a mesma licenciatura.
Quando terminei o bacharelato de três anos, depois de ingressar no ciclo especial de 2 anos para a obtenção da licenciatura, o confronto com a realidade, depressa surgiria. O peso das responsabilidades familiares começava a manifestar-se, depois do meu casamento e com o nascimento do meu primeiro filho: o Arquitecto Luís Filipe César Canotilho, que muito me tem ajudado, nos níveis teórico e prático do meu trabalho. No final do quarto ano, fui realizar o estágio ao “ensino preparatório” (5º e 6º anos de escolaridade) em Viseu, tendo terminado a licenciatura um ano depois.

Foi na ESBAP que conheci uma colega e amiga com quem casei. A mulher da minha vida, a pintora Maria Helena Pires César Canotilho.
Devo referir que ela tinha vindo de Angola, onde usufruía, com os seus pais, de uma vida confortável. Contudo, com o 25 de Abril, nunca compreendeu, bem como os seus pais já falecidos, a expulsão de Angola a que foram sujeitos por motivos ideológicos, bem como o que tiveram de se sujeitar negativamente, aqui em Portugal. Eram os apelidados de “retornados”, de forma depreciativa. Expulsos e expropriados por motivos ideológicos e irracionais, foram forçados a abandonar os seus bens e os seus sonhos.

Jamais perdoarei aos que foram responsáveis pela destruição de milhares e milhares de sonhos!
Depois de várias tentativas de recuperar economicamente, ambos morreram com muitas dificuldades económicas. Foram escravos do trabalho, roubados deliberadamente por gerentes bancários sem escrúpulos, e pelo próprio poder político da época, que fez devolver subsídios doados por países nórdicos, aos portugueses que haviam sido obrigados a deixar as antigas Províncias Ultramarinas.

A pintora Maria Helena Pires César Canotilho foi Professora Adjunta na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança, profissão que abraçou com a maior dedicação. Certamente que é a melhor retratista da actualidade, reconhecimento que a sociedade jamais lhe dará, dada a sua personalidade forte e discreta.
De qualquer forma é sem dúvida, uma artista plástica que domina a composição plástica, a técnica, o processo criativo formal e, que muito me tem ajudado nos meus trabalhos, principalmente de cerâmica.
Nesta sociedade, no campo artístico, só parecem sobreviver os exibicionistas, no fundo quem possui um Ego doentio. Lamentavelmente, a qualidade na actividade artística, parece não ser reconhecida desde o século XX.

Em 1979/1980, depois do estágio ao ensino realizado em Viseu, como já referi, eu e a Helena Canotilho, começámos por ocupar os lugares de efectivos na então Escola Preparatória Augusto Moreno em Bragança, e posteriormente, na então inaugurada Escola Preparatória Paulo Quintela, também na mesma cidade.
Entretanto, casado, com dois filhos (o segundo é o Vitor Daniel César Canotilho) e efectivo no ensino, fui obrigado a cumprir o “serviço militar obrigatório” durante ano e meio. Este período perdido foi muito prejudicial para mim, embora tenha estado numa estrutura onde, os princípios éticos, o rigor, etc, têm um papel social muito importante. Será importante referir que esta experiência contribuiu positivamente para o meu crescimento emocional.

Foi após este período que, com a Helena Canotilho, formámos uma empresa de Cerâmica (Ceara, Cerâmica Artística Lda.), cujo objectivo era a produção de pequenas séries de peças artísticas. Contudo os entraves da autarquia, bem como os jogos das entidades bancárias, fizeram com que tomássemos a decisão de desistir. Recordo que o projecto apresentado, teria um financiamento de 42% a fundo perdido. Decidimos comprar o equipamento por leasing, sem recorrer ao “garrote” dos empréstimos bancários que, constituiriam mais tarde o nosso suicídio económico.
Devo referir, que é por estas circunstâncias limitadoras que faz com, que pessoas como nós, optem pelo funcionalismo público como docentes.
Ser-se empresário em Portugal é um acto de verdadeiro heroísmo…
A opção mais segura, depois da leitura realizada, foi continuar no ensino e produzir cerâmica artística, sem qualquer tipo de dependência bancária ou encargos volumosos com funcionários.

Foi nesta fase que decidimos abraçar a carreira docente. Para o efeito, pretendemos realizar o doutoramente em Belas Artes. Como não existia em Portugal, formos para a Universidade mais próxima de Bragança, com esse curso: Salamanca. Contudo fomos alertados pelo nosso tio, o Professor Catedrático Joaquim Gomes Canotilho, jamais poderia ser organizado um júri de reconhecimento, porque só havia um doutorado na área em Portugal: O pintor Lima de Freitas. Daí a opção pelo Doutoramento em Filosofia e Ciências da Educação da Universidade de Salamanca, já que o nosso percurso profissional, seria na área da formação de professores.

Com a abertura do Instituto Politécnico de Bragança assumimos, os lugares de quadro.
Fui presidente do Conselho Directivo da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança durante 4 anos. Nesse período, entre outros, orgulho-me de ter construído o actual edifício da Escola Superior de Educação de Bragança, bem como o do Instituto Politécnico de S. Tomé e Príncipe. As inúmeras deslocações a S. Tomé e Príncipe durante a construção, as reuniões do Conselho Científico, os cursos de Formação de Professores e a população local, fizeram com que o Amor por este país seja infinito. Importa aqui considerar que a minha equipa de trabalho era constituída pelos Professores Catedráticos Nuno Grande (Medicina) e Adalberto Dias de Carvalho (Letras), a quem devo muita Amizade.

Os últimos 20 anos do séc. XX, foram para o ensino superior décadas mágicas.
A formação de Professores constituiu um objectivo político fundamental, por todos os governos portugueses.
A minha experiência passou por instituições como a Escola Superior de Educação do Instituto Piaget / Nordeste em Macedo de Cavaleiros, o Centro Integrado de Formação de Professores (CIFOP) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e posteriormente na Escola de Ciências Humanas e Sociais (ECHS). Muitas foram as Acções de Formação de Professores dadas, cursos e outras actividades.
Nestas duas décadas e até ao ano 2000, foi um privilégio ser docente…
Como docente realizei-me plenamente, como formador de professores de Artes Visuais, ao nível das licenciaturas, mestrados e doutoramentos.
Recordo que vinham alunos espanhóis, das licenciaturas de formação de professores, só para fazerem o estágio pedagógico na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança, tal era a qualidade dos cursos.
Nestas duas décadas, além da minha mulher e colega Maria Helena Pires César Canotilho, não me posso esquecer de dois colegas fundamentais neste meu longo percurso como professor: O Professor João Lopes Marques Gomes e a Professora Celeste da Conceição Miranda ("Letinha"). Se o primeiro foi um verdadeiro pedagogo, esquecido pela sua humildade, serenidade e descrição,  na Letinha reconhecia a expressão de amor da minha mãe mas, ao mesmo tempo, uma guerreira muito parecida como a minha mulher Helena Canotilho.

Sempre tive amigos, mas em número muito reduzido e de grande qualidade...

O Ensino, profissão que abracei como Paixão e Vocação, deixou há muito de ter como objectivo básico e essencial: Fornecer competências teóricas, práticas e críticas para uma determinada profissão. Para ser campo volátil das novas ideologias de democracia impostas pela Comissão Europeia, em permanente mudança, indefinidas a nível conceptual, que sociabilizam os jovens, para a valorização do espectáculo medíocre em que se tornou a Cultura, só possível por “artistas” oportunistas, nomeados sabe-se lá por quem, como “elites”.

O espírito Crítico foi retirado do ensino superior!...

Tudo isto sucedeu em 1999 com o execrável "Processo de Bolonha".
Além da incompreensível redução de anos nos cursos, o sentido crítico deixou de estar presente nos programas das disciplinas e foi substituído pelo pensamento ideológico inquestionável, porque os conceitos sociais infalíveis, destas sociedades democráticas da Comissão Europeia, jamais poderão ser colocados em causa… Talvez porque atingiram a perfeição!...

"Bolonha", provocou o abandono da formação de professores pela minha Escola Superior de Educação de Bragança...
Quem me seguiu na direcção desta instituição revelou insensibilidade pela formação de professores. Além de permitirem o encerramento destes cursos, não lutaram por mestrados específicos nesta área do ensino.  A destruição da Ludoteca da Escola Superior de Educação, entre outros equipamentos, que haviam sido herdados do antigo Magistério Primário, foi como que uma facada espetada no meu peito e de outros professores.

De qualquer forma, convém expressar o orgulho de ter sido Professor do quadro do Instituto Politécnico de Bragança, na sua Escola Superior de Educação!

Depois de 47 anos de carreira docente imposta socialmente, dei sempre o melhor de mim, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança, no Piaget / Macedo Cavaleiros, bem como na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o que muito me orgulha!


Só lamento!
Só lamento o muito tempo perdido com Confissões religiosas, Sociedades Secretas ou Discretas, Clubes Desportivos, Clubes Motards, etc., a que pertenci e muito dei de mim, sem exigir qualquer tipo de retorno.
Sempre considerei que temos uma missão social e ética na vida!...

Volto a referir a minha fraqueza: Sempre fui muito vulnerável a ideais!

Todas estas organizações definem-se pela sua superficialidade e superioridade moral e social. Contudo sem as conhecermos interiormente, jamais somos capazes de tomar a decisão, altamente positiva, de as abandonar…

Contudo perdem-se anos de vida, oportunidades relacionadas com a vocação artística, a família e do foro social. 
Esta constante procura, terminou sempre num vazio existencial, não pelos princípios que defendem, mas porque as lideranças, há muito, foram tomadas pelas mais detestáveis personalidades egocêntricas e oportunistas.
Devemos ter consciência que são estas lideranças corruptas, quem violam os estatutos ao seu belo prazer e para “gozo pessoal”.
Contudo a maioria como eu, vai continuar a acreditar ingenuamente e durante muito tempo, por estar no estádio de “covardia metafísica” tão bem definido por Friedrich Nietzsche, até um dia!...
É então que a coragem, dos que são mais evoluídos culturalmente, aparece sempre, quando compreendemos que os nossos objectivos pessoais e familiares estão em causa. A nossa reflexão interior, apela sempre à nossa liberdade, à negação da escravatura organizacional e consequentemente, através de um fenómeno de rejeição, faz com que abandonemos, de forma discreta, perante a incompreensão dos seus execráveis e corruptos líderes.
Quem está nestas organizações herméticas, não se apercebe que é por “covardia metafísica” ou “niilismo passivo”, incapaz de ser livre, por só haver lugar à obediência pessoal e a sua consequente destruição enquanto pessoa...
Será este o meu único arrependimento existencial!

Tudo isto constituiu, como já referi, num irreversível prejuízo familiar e da minha carreira enquanto artista, o que lamento profundamente.

No fundo, reconheço que fui educado para obedecer….

Daí que fui atraído, durante mais de 30 anos, por uma Obediência, que na realidade não corresponde minimamente aos ideais que diz promover e defender.
É uma organização perfeitamente dispensável socialmente. Vive de um discurso histórico, baseado na oralidade, num fundamentalismo inorgânico, não se assumindo, mas confundindo-se com mais uma religião.
Apenas promove o Ego de alguns oportunistas que por lá andam.

Neste processo de construção, quando passamos do conceito de vida, na base de ideais preconcebidos, para a realidade objectiva e conceptual, deixamos de fingir acreditar nos pressupostos artificiais e ideológicos, porque passamos a ter convicções bem definidas.
Deixamos de "fingir ser" e "fingir estar" socialmente, secundarizar a exaltação do nosso “Ego” pessoal e, arranjamos coragem para abandonar o estado de apatia pessoal, conseguindo ultrapassar esse “niilismo” latente.
No fundo deixamos de ter Medo de viver…
Só a partir daqui é que começa o princípio da criação, onde o caminho que vamos percorrer, passa a ser unicamente, uma opção individual, na base de uma “solidão pessoal”, livre de todos os tipos de "organizações", “obediências” e “ruído social”.
A partir daqui somos plenamente Livres e não temos Medo de viver!

                                     Hoje, considero-me finalmente um Homem Livre e sem Medo!…
                                                                                                                                                              Junho de 2026